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Aécio 2.010

Merval
Pereira:: A visão de Aécio

DEU EM O GLOBO

Recebi do
governador de Minas Gerais, Aécio Neves, pré-candidato à Presidência da
República pelo PSDB, a seguinte mensagem, a respeito da coluna de ontem, “Passo
em falso”, em que critiquei o encontro entre ele e o deputado federal Ciro
Gomes, candidato potencial pelo PSB.

Como se trata de um depoimento esclarecedor sobre seu processo decisório,
num momento fundamental para a definição do candidato do PSDB, publico a íntegra
da mensagem:

“Caro Merval, dizem que a política é território onde, em
detrimento da verdade, prevalecem as versões.

Hoje, ao ler os jornais,
fiquei com o sentimento de que é também o território das interpretações, mais do
que o da realidade.

Estou surpreso com a repercussão do meu encontro com
Ciro Gomes ontem em Minas.

E por uma única razão: não há nada de novo
nele.

O deputado Ciro já esteve por diversas vezes no estado.

Em
algumas delas estivemos juntos. Por várias ocasiões ele já reafirmou a
possibilidade de retirar a sua pré-candidatura caso a minha venha a se
concretizar.

No entanto, em nenhuma dessas ocasiões o assunto mereceu
tanta atenção.

A pressa em rotular ou tentar encontrar nesse encontro al
guma motivação que pudesse contribuir para as falsas teorias conspiratórias em
curso no cenário político fez com que passasse desapercebido o único fato novo
ocorrido no encontro: pela primeira vez o ex-ministro vem a Minas e não faz, no
estado, nenhuma crítica ao governador Serra.

É claro que isso não foi por
acaso. Surpreende que ninguém tenha observado isso, que, se não tem nenhum
significado específico quanto à posição de Ciro, certamente revela muito da
minha.

Percebo com clareza o esforço feito por alguns no sentido de
tentar fazer prevalecer sempre uma visão maniqueísta dos acontecimentos. Por
essa ótica, tudo o que eu faço tem como objetivo gerar constrangimentos para o
governador Serra, e tudo o que ele faz — ou não faz — tem como objetivo me criar
dificuldades.

Serra prefere que a decisão do partido se dê em março? Ora,
é para inviabilizar o Aécio, correm a dizer.

O Aécio se encontrou com C
iro? É só para incomodar o Serra, repetem à exaustão.

Essas análises
seriam apenas uma forma empobrecida de perceber a realidade política se não
terminassem por cumprir uma função: engessar os movimentos do Serra e meus de
forma a perpetuar a ideia de um falso antagonismo entre nós.

O governador
Serra tem inúmeras razões, todas corretas, para agir da forma que
age.

Também eu as tenho.

Nossas iniciativas têm outras motivações.
Pergunto: e se eu recebo amanhã, como já recebi inúmeras vezes, a bancada
federal de algum partido? Na lógica das análises apressadas, alguém vai dizer:
depois de se encontrar com Ciro, Aécio recebe a bancada do partido X para
enfraquecer Serra.

E, se a minha agenda política não tiver nenhum
encontro que possa ser interpretado do ponto de vista eleitoral, ainda assim
alguém pode interpretar: silêncio de Aécio tem como objetivo pressionar
Serra.

Tanto o governad or Serra como eu temos responsabilidades e não
podemos agir ou deixar de agir em função de interpretações.

Não podemos
ser reféns de interpretações.

Você se recorda quando, há bem pouco tempo,
algumas análises, apesar dos meus reiterados desmentidos, garantiam que eu ia
deixar o PSDB? Análises podem se mostrar incorretas. O tempo é que diz. Mas nós,
que temos responsabilidades públicas, não temos o direito de errar tão
facilmente.

Continuo acreditando que o PSDB precisa ampliar o seu leque
de alianças qualquer que seja o nosso candidato. E continuo achando que essas
alianças devem ser buscadas no período préeleitoral, no período eleitoral e,
certamente, também após as eleições.

A experiência da aliança com o PT em
torno das eleições em Belo Horizonte cumpriu um papel importante. Tanto o
prefeito Pimentel quanto eu sabíamos que ela estaria necessariamente restrita ao
âmbito municipal, uma vez que nã o há condições políticas de que ela fosse
pensada de outras formas.

Digo que ela cumpriu um papel importante — e
lembro que existem centenas de alianças municipais PSDB-PT Brasil afora — porque
acredito que o processo político não é linear.

Por fim, reitero o que
venho repetindo muito ultimamente, por mais ingênuo que possa parecer para
muitos: faço política conversando. Com aliados, com possíveis aliados, com
adversários. É uma forma de se identificarem espaços e caminhos para a
construção de consensos e avanços, embora reconheça que, em algumas
circunstâncias, não há como fugir do confronto.

Em Minas, costuma-se
dizer que, em política, devem brigar as ideias, não os homens.

Por isso,
durante o meu governo, o Palácio das Mangabeiras, residência oficial do
governador do estado, vem recebendo deputados, senadores, governadores e
ministros de todos os par tidos, inclusive da oposição. À luz do
dia.

Pela porta! da frente”.

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