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Festas

Clima de festa (Mário Viana)

 

Ceias de Natal são o hábitat preferido de espécies que hecatombe alguma ameaça de extinção: os tipos folclóricos familiares

 

Entra ano, sai ano e a única coisa que muda é o penteado de alguns personagens. Às vezes, nem isso. O cunhado se apossa do videokê (cunhados adoram videokês), sobrinhos berram pela casa e sempre chega uma prima que ninguém estava esperando. Pior, carregando um presentinho – justo ela, tão sumida que nem entrou no amigo secreto familiar. Ah, é. Tem isso: o amigo secreto familiar.

Em meio ao blablablá de paz entre os homens, o Natal embute uma ameaça à estabilidade emocional de quem se julga bem resolvido e quase em condições de ter alta da terapia. Juntos, pais, mães, tias, primos – e cunhados – transformam qualquer festa num evento que beiraria o trágico se não mergulhasse no cômico.

Tio Sofredor e Tia Animada
Ele sempre sente alguma dor, que os médicos insistem em ignorar; ela é um escândalo, bebe muito, ri alto e puxa o corinho de "discurso, discurso, discurso" em todo final de "Parabéns a Você".

O Crítico e o Corpo Mole
Nada neste mundo existe sem que o primeiro tenha opinião, emitida em voz alta, até para quem não quer ouvir; o segundo jura que vem ajudar a montar o som, instalar a lona e carregar o engradado de cerveja. Chega bem na hora da festa e só sai carregado.

A Passiva-Agressiva
Papel geralmente exercido por uma tia mais velha ou uma prima abandonada pelo marido. Para ela, uma pessoa simples, qualquer coisa está bem, tudo é muito bom, o pessoal é bonzinho. Pena que sirvam comida que faz mal a ela, que ninguém toque as músicas de que ela gosta… No mundo ideal, todos adivinhariam seus pensamentos.

O Brucutu e a Enjoada
Barriga de tanquinho e cérebro de tábua de passar, ele carrega geladeiras e barris de bebida, só para que notem seus bíceps; ela come, bebe e troca presentes, mas diz que comida boa, bebida boa e presente bom só numa festa a que foi, muito tempo atrás. "Aquilo é que era festa", suspira.

O Exibido e a Fofoqueira
Para ele, famosos não têm sobrenome. Sua frase preferida é "Eu falei com o Zé", referindo-se a algum bacana do poder; ela fica num ponto estratégico e não perde um só lance da festa, devidamente comentado a seguir

O Teen Emburrado e a Alcoviteira
Ele se comunica por grunhidos, acha tudo um tédio e só dá sinais de vida na hora da ceia; a grande ameaça a ele é a Alcoviteira, cujo vocabulário básico tem três frases: "Como você cresceu", para o teen; "Quando você se casa?", para os solteiros; e "Quando vêm os filhos?", para os casados.

A Grande Vítima e o Casal Nem Aí
Esse é o papel da mãe, ninguém ouse ameaçar seu reinado, justo ela que fez sozinha toda aquela comida, sem a ajuda de ninguém e sem esperar cumprimentos, porque ninguém liga mesmo… O casal de primos vem de um bairro distante, tem cinco capetas, chamados de filhos, que destroem a casa em que estão, enquanto os pais aproveitam a festa.

ILUSTRAÇÃO: RODRIGO PEREIRA

Categorias:Reflexões
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