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Reflexões Reflexivas

A hora dos panos quentes


Por Carlos Brickmann em 9/2/2010

A
revelação, algumas horas antes da abertura dos envelopes, das empresas
de publicidade ganhadoras da concorrência da Petrobras, é exemplar por
vários motivos. Primeiro, por ter ficado claro, mais uma vez, que o
sistema de concorrência pública no Brasil ainda tem furos que permitem
o favorecimento de grupos menos competentes ou mais careiros; segundo,
porque a Petrobras levou alguns dias para cancelar a concorrência,
quando deveria tê-lo feito imediatamente, tão logo se verificou a
irregularidade. Terceiro, por ter mostrado que a imprensa, se foi capaz
de repercutir a informação de uma revista eletrônica, a Meio&Mensagem Online, não teve fôlego para ir mais longe.

Ou,
pior ainda, não teve fôlego para ir mais longe nem imaginação para
buscar novas pautas a respeito de um tema tão escabroso. Por que, por
exemplo, a Petrobras demorou tanto para cancelar a concorrência, se era
público e notório que havia pelo menos uma irregularidade insanável?
Qual o perfil das agências que ganharam a concorrência antes da
abertura dos envelopes? Qual o relacionamento já existente entre elas e
a Petrobras? Como é que uma empresa multinacional, que há pouquíssimo
tempo deixou de ser um braço de sua sócia brasileira, de repente ganhou
músculos para derrotar concorrentes com muito mais tradição no mercado?
E, a partir daí, por que não verificar se nos estados, governados seja
por que partido forem, as regras das concorrências têm as mesmas falhas?

Num
ano eleitoral, e havendo envolvimento de uma empresa-símbolo do país,
como a Petrobras, há o risco de partidarizar as investigações. Isso
deve ser evitado: envolvimento partidário só se ficar comprovado que os
partidos têm conhecimento das irregularidades, se beneficiam delas,
participam da fraude.

Fraude, a propósito, é a palavra que deve
nortear as coberturas. Se o resultado da concorrência era conhecido
antes da abertura dos envelopes, houve fraude; alguém buscou, por algum
motivo, controlar o resultado da concorrência. É difícil de apurar, mas
se alguém o conseguir terá uma excelente reportagem nas mãos.

 

Jornalismo bonzinho

Aquela
história de que os bancos só lhe emprestam dinheiro quando você não
precisa continua válida; e a cada dia vale para mais setores da
economia. Seguro saúde, por exemplo: à medida que o cliente envelhece
(e tem sua capacidade de ganho reduzida), as seguradoras apertam mais a
corda no seu pescoço, punindo-o pela ousadia de não morrer tão cedo
quanto suas estatísticas estimavam.

Mas há abusos bem menos
sofisticados do que esse. Uma jovem que mora em São José dos Campos
(SP), associada à Unimed Paulistana, precisa fazer uma biópsia no seio
– coisa urgente, já que se for problema sério terá de ser tratado
imediatamente. A jovem foi à Unimed em São José dos Campos, levando
toda a documentação, e nada de receber resposta. Reclamou, e soube que
a empresa nem havia encaminhado ainda os documentos à congênere
paulistana. Conversou com a Unimed Paulistana e soube que o pedido,
quando chegasse, levaria pelo menos três dias para ser analisado.
Experimente o caro colega atrasar três dias o pagamento do seguro-saúde
(ou, no caso, mais de uma semana, já que houve a retenção em São José
dos Campos). O lado de lá do balcão não costuma ter compreensão nenhuma
em casos como este.

Resultado (por enquanto): a advogada da jovem
registrou boletim de ocorrência na delegacia de polícia e prepara
outras providências. E os meios de comunicação? Quietinhos, quietinhos.
Não falam sobre problemas sérios, específicos, como este; não falam
sobre problemas sérios, crônicos, como o dos aumentos astronômicos para
os chatos que insistem em continuar vivos, ousados que são.

Uma
amiga deste colunista entrou, há muitos anos, no plano mais caro de um
seguro saúde bem conceituado. O seguro quebrou, foi vendido a outro,
que quebrou, foi vendido a outra, e o plano dela foi caindo de patamar.
Hoje a sede fica fora de São Paulo e o tratamento é analgésico da
cintura para cima e elixir paregórico da cintura para baixo. E, embora
continuem cobrando pelos planos top, nem os xaropinhos e comprimidos eles estão dando.

Imprensa?
Não, isso não vale. Matéria boa é aquela que o promotor já dá pronta,
não exige prática nem tampouco habilidade. No máximo, e só para
constar, ouvir o outro lado, numa matéria que deverá ser publicada num
canto, bem pequenininha. Pesquisar, fazer reportagem? Dá trabalho, e
trabalho cansa.

 

Baixando o nível

Agora,
outro caso em que o preço se mantém e o serviço decai. Um associado da
Amil, morador em Itu (SP), foi aos laboratórios credenciados da cidade
para fazer um teste ergométrico. Foi rejeitado: um se recusou a
atendê-lo alegando que não recebia os reembolsos do convênio há um bom
tempo, outro preferiu não explicar os motivos da recusa. Procurou então
a Amil, para saber o que acontecia. Não teve informação. Insistiu,
insistiu, e depois de muito tempo lhe sugeriram que procurasse
atendimento em outra cidade. Ou seja, não tinham a menor intenção de
liquidar as pendências com os laboratórios por eles credenciados.

Assim
fica fácil: os prestadores de serviço não recebem e, quando reclamam
muito, são descredenciados e substituídos por outros que acreditam que
terão tratamento diferente. Quanto aos clientes, ou pagam ou perdem
direito a todo o resto dos serviços. É o famoso jogo do perde-perde.

Meios
de comunicação? Pois é: há empresas que são grandes anunciantes. Será
que vale mesmo a pena ficar ao lado dos consumidores de informação e
arriscar-se a perder anunciantes? A resposta é óbvia – e talvez
explique o silêncio.

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Categorias:Reflexões
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