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Reflexões Carlos Brickman

O problema não é a pergunta, é a resposta


Por Carlos Brickmann em 16/2/2010

O
governador paulista José Serra perdeu a calma diante da pergunta de um
repórter da TV Brasil, que queria saber qual sua mensagem "aos 750 mil
moradores" de São Paulo que, por problemas numa adutora, ficaram alguns
dias sem água. Serra disse que a estatal paulista de águas, a Sabesp,
estava resolvendo o caso. E abriu fogo: "Espero que a TV Brasil tenha o
mesmo interesse com cada estado e cada município", e acusou-a de
parcialidade na cobertura.

A entrevista tinha sido convocada para
falar sobre o novo mínimo paulista, bem mais alto que o federal. Mas a
pergunta tinha sentido: se há gente sem água, não importa qual o motivo
original da entrevista, é preciso falar sobre o tema.

Serra, um
político experiente, já deveria saber que uma pergunta nunca é
inconveniente. O que pode ser inconveniente é a resposta. E não deveria
irritar-se:

1. A TV Brasil tem 0,7 ponto de audiência média. Com esse índice, dificilmente conseguirá repercussão;

2.
O desabafo do governador chamou muito mais a atenção para a entrevista
do que a própria audiência da TV. E um candidato à Presidência da
República precisa saber que cada palavra sua será ouvida, interpretada,
gravada e guardada para a campanha;

3.
Nem os poucos fios de cabelo que restaram ao governador esperam que a
TV do governo federal não se preocupe em agradar seu proprietário e
patrocinador;

4.
Nenhum meio de comunicação dará "a cada estado, a cada município", o
mesmo nível de atenção. São Paulo é a maior cidade do país. Guarulhos,
governada pelo PT, cheia de problemas na área do saneamento básico, é a
segunda cidade do estado, mas muito longe da primeira. Portanto, o
interesse dos meios nacionais de comunicação por Guarulhos é menor do
que por São Paulo;

5.
Serra deu a pista do que o irrita. De agora em diante, pode esperar
perguntas sucessivas sobre alagamentos, inundações, piscinões, água e
esgotos.

As eleições estão aí. E, numa metáfora muito adequada, la nave va.

 

Mas que tem, tem

Armando
Falcão teve uma trajetória de vida retilínea: sempre, sem concessões,
combatendo a liberdade. Para a imprensa, entretanto, houve dois Armando
Falcão: um, bonzinho, uma beleza de pessoa, gente finíssima, um anjo!,
quando foi ministro da Justiça do governo Juscelino Kubitschek e
proibiu o acesso do principal líder oposicionista, Carlos Lacerda, à
TV; outro, perverso, uma péssima pessoa, gente horrorosa, um demônio!,
quando foi ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel e proibiu o
acesso dos políticos oposicionistas à TV. Explica-se: na época de
Juscelino, Carlos Lacerda era "a direita", e contra ele valia tudo. Na
época de Geisel, a oposição era "a esquerda", e as mesmas atitudes
ditatoriais de Falcão, boas na época de Juscelino, passaram a ser
malvistas.

O ex-ministro da Justiça morreu na semana passada, aos 90 anos.

 

Jogos eleitorais

O
ex-governador fluminense César Maia faz uma acusação interessantíssima:
a de que o prefeito carioca (e seu adversário político) Eduardo Paes
tenta posar de responsável por um filme de animação sobre o Rio, que
seria lançada pela Fox em 2011. Paes disse à imprensa que se reuniria
com Carlos Saldanha, o brasileiro responsável pela trilogia A Era do Gelo,
para convencê-lo a criar o roteiro do "grande lançamento mundial de
animação da Fox em 2011". Só que em maio do ano passado, a revista Variety
disse que a animação sobre o Rio já estava com elenco confirmado,
iniciando os trabalhos, e seria lançada em 2011 pela Fox. Se há nove
meses a notícia já tinha saído, que é que Eduardo Paes está aprontando?

 

Character assassination 1

Em
2002, um empresário foi acusado de observar, por câmeras de TV, uma
hóspede adolescente de sua casa. O delegado encarregado do caso deu
aquelas entrevistas para conseguir holofotes, chamou o empresário de
pervertido, a notícia foi publicada amplamente. Mas era falsa:
primeiro, o empresário estava morando na Europa e a hóspede no Brasil;
segundo, as câmeras existiam, mas estavam desligadas havia muitos anos
e não funcionavam; terceiro, mesmo se as câmeras estivessem ligadas e
funcionando, não se conectavam a nenhum equipamento de transmissão.
Agora, sabe-se lá como é que aconteceu, um importante portal de
notícias republicou a história, mantendo até a data original de 2002
(mas quem lê a data?), e enviou-a a seus clientes, que também a
divulgaram. O portal, segundo disse o empresário a este colunista, foi
informado, e quatro dias depois não havia retirado a notícia do ar.

Parece
claro a este colunista que não houve má-fé: houve algum daqueles
acidentes de computador. E houve descaso de quem deveria ter notado o
erro e retirado a notícia do ar. Mas a questão é outra: seja qual for o
motivo que trouxe a história falsa de volta, a vítima sofreu mais uma
vez. Como evitar que esse tipo de fato continue ocorrendo? Este é um
debate dos mais interessantes: o funcionamento no dia-a-dia dos
noticiários virtuais.

Character assassination 2

Lembra
da espetaculosa ação da Polícia Federal contra o escritório Oliveira
Neves, especializado em advocacia tributária? O advogado foi preso, com
TV e tudo, seus clientes debandaram, ele acabou sendo solto por
absoluta falta do que acusá-lo. Na operação, que agora se sabe que não
tinha motivo justo, o escritório minguou. Pois bem: anos depois da
libertação do advogado, livre de qualquer acusação, um jornal trouxe o
caso de volta, para informar que foi rejeitada uma ação por lavagem de
dinheiro contra uma empresa que constava entre suas clientes.
Traduzindo: a boa notícia, de que a empresa estava limpa, acabou
virando munição contra o advogado que teve a audácia de provar que era
inocente.

Chatamente correto

Uma organização politicamente correta iniciou uma campanha contra Angeli, o grande cartunista da Folha de S.Paulo,
por causa de uma tirinha de quadrinhos em que uma mulher apanha. Num
quadrinho, a mulher se queixa: "Mário, há anos que você não me toca!"
No quadrinho seguinte, porrada. No terceiro, "Pronto! Não tem do que
reclamar". A campanha vem embalada no slogan "Violência contra a
mulher, não tem graça nenhuma", desse jeito mesmo, com a violência
contra o idioma; e diz que a tirinha é "lastimável, inadequada e
violenta".

Abre-se caminho, assim, para uma série de campanhas
politicamente corretas. Vamos fazer com que Dik Browne mude os hábitos
de Hagar, o Horrível, que bebe demais, está acima do peso, detesta a
sogra e saqueia os países vizinhos. E não é possível tolerar o que o
desenhista Jim Davis faz com Garfield – que come lasanha, alimento
inadequado para gatos, não faz exercícios, bate no cachorro Oddie e
rouba a comida de seu dono. Horror, horror, horror! Bill Waterson
estimula Calvin a brincar com um amigo imaginário, Haroldo, um bichinho
de pelúcia que ele imagina ser um tigre, um feroz predador!

Cascão
precisará tomar banho, claro. Que exemplo o nosso Maurício de Souza
quer dar às crianças chatamente corretas? A Mônica deve ir ao dentista
o mais rápido possível e perder seu feio hábito de bater nos meninos.
Que tal nossa Moniquinha com sapatos de lacinho, vestidinho cor-de-rosa
e uma margarida nas mãos, no lugar do coelhinho? Aline dividindo a cama
com seus dois namorados, nem pensar. E Valentina, de Guido Crepax,
dando sem parar?

Os amigos do politicamente correto que perdoem
este colunista, mas há certas lembranças que funcionam como lições de
História. Os nazistas acusavam o Super-Homem de ser judeu (como terão
feito a circuncisão em seu pênis de aço?).

Vamos querer a patrulha ideológica de volta, para que comics
expressem um pensamento único? Não é mais simples e democrático deixar
de acompanhar as histórias em quadrinhos que consideremos inadequadas?
Ou vamos exigir que os amiguinhos Batman e Robin dispensem o mordomo
Alfred, que não tem hora de folga nem dia de descanso, e se mudem para
um local mais ventilado e menos insalubre do que a Batcaverna que hoje
dividem com aquele Batcarro poluidor?

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