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Mulher no Poder: um Preconceito


PATRULHEIROS DA MORAL

Política rancorosa e sexo doentio


Por Carlos Brickmann em 16/3/2010

Festejou-se abundantemente o Dia
Internacional da Mulher, com exemplos de mulheres que ocupam cargos
importantes, dedicam-se à caridade, cuidam dos filhos e da casa,
estudam, têm disposição e coragem para viver como querem.

Enquanto
isso, a imprensa britânica insiste sem parar num caso extraconjugal que
a esposa do presidente francês Nicolas Sarkozy, Carla Bruni, estaria
mantendo com um cantor. A insistência chegou a tal ponto que, na
entrevista coletiva com Sarkozy e o primeiro-ministro inglês Gordon
Brown, a pergunta foi feita pelo menos três vezes. Desenterraram, em
tons de escândalo, a foto de um jantar em que Carla "está visivelmente
sem sutiã" – como se usar sutiã fosse obrigatório, como se usar sutiã
fosse sinal de moralidade, como se Carla, cantora e modelo internacional
de sucesso, já não tivesse posado sem sutiã, sem calcinha e sem roupa
alguma dezenas de vezes (e todas valeram a pena).

É um problema
recorrente sempre que alguma mulher atinge posições de poder. A
primeira-ministra israelense Golda Meir era criticada por ser feia (e
era); mas ninguém jamais comentou a beleza física do primeiro-ministro
Ariel Sharon, ou do presidente José Sarney. Dizia-se de Golda, como
elogio, que era mais homem que qualquer de seus colegas ministros.

Margaret
Trudeau, a bela e jovem esposa do então primeiro-ministro canadense
Pierre Trudeau, um dia se cansou de tanta discussão sobre a ousadia de
suas roupas e prometeu ironicamente aos repórteres que não mostraria os
mamilos em público.

Em todos esses casos, entretanto, o que há por
trás das notícias é a insistência em ver na mulher apenas o símbolo
sexual. O caso que acontece agora no Brasil é diferente: procura-se
explorar a nudez – que nem é nudez, já que não aparece nada nas fotos –
de uma subprefeita de São Paulo para demonizá-la e daí tirar proveito
político. Soninha, ou Sônia Francine, que nasceu politicamente no PT e
está hoje no PPS, comete um pecado gravíssimo aos olhos da patrulha
petista: apóia a candidatura do governador paulista José Serra, do PSDB,
à Presidência da República. Ao tirar a roupa, primeiro para uma
campanha de estímulo ao uso de bicicleta (não, não perguntem ao
colunista o que tem uma coisa a ver com outra) e, logo depois, para a
revista Playboy, em ambos os casos de forma quase monástica,
virou alvo dos bem-pensantes. Foi até engraçado: Soninha foi atacada por
todos os lados, dos patrulheiros petistas aos patrulheiros
antipetistas, que a chamaram de "Soninha do PT", nome que usou quando
era do PT, para tentar identificá-la com os adversários de hoje.

Soninha
sempre foi uma jovem de comportamento ousado. Engravidou muito cedo,
não casou, trabalhou, criou a filha, entrou na política. Anda de
bicicleta ou de moto nas ruas de São Paulo, uma prática normalmente
perigosa. Apareceu na capa de uma revista semanal dizendo que já tinha
fumado maconha. Em resumo, é um prato cheio para qualquer patrulha
moralista. Os patrulheiros só esquecem que liberdade é poder fazer
aquilo de que os outros não gostem, desde que não os prejudique. E
Soninha, ao que se saiba, jamais prejudicou alguém com seus hábitos.

Traduzindo,
o problema é ser mulher. Festeje-se menos, respeite-se mais.

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Categorias:Reflexões
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