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Mistééério!!!

01/04/2010 09:06
MISTERIOSO ESSENCIAL

De
onde vem o misterioso sinal @, a que os portugueses chamam «arroba», os
norte-americanos e ingleses «at», os italianos «chiocciola» (caracol) e
os franceses «arobase»? Porque razão foi ele escolhido para os endereços
de correio electrónico? Na verdade, não conhecemos ao certo a origem
deste misterioso símbolo. Nem estávamos preocupados com o problema, até
que ele começou a entrar no nosso dia-a-dia e foi preciso arranjar-lhe
uma designação.

A princípio, os portugueses chamavam-lhe «caracol», «macaco» ou
outro nome claramente inventado. Depois, houve quem reparasse que a
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira dizia tratar-se do símbolo
de arroba, pelo que esse nome pegou.

Que terá a arroba a ver com esse sinal? Não se sabe ao certo,
mas há pouco mais de um ano, o investigador italiano Giorgio Stabile
descobriu um documento veneziano datado de 1536 onde esse símbolo
aparecia. Estava aí a representar ânforas, utilizadas como unidades de
peso e volume. Posteriormente, num vocabulário Latim-Espanhol de 1492,
Stabile encontrou o termo «arroba» como tradução castelhana do latim
«amphora». A ânfora e a arroba, concluiu o investigador italiano,
estariam na origem da estranha letra retorcida.

O encadeamento dos factos é fascinante, mas há pontos obscuros. A
palavra «arroba» não tem qualquer relação com «ânfora», pois vem do
árabe «ar-ruba’a», designando «um quarto» ou «a quarta parte», como se
aprende no Dicionário Etimológico de José Pedro Machado. Trata-se de uma
unidade de peso que equivale a 14,788 quilogramas e que habitualmente
se arredonda para 15kg. Podia ser que uma ânfora cheia de vinho tivesse
esse peso, mas a semelhança fica por aí.

No século XVII o mesmo símbolo reapareceu, mas com outro
significado. Utilizava-se para abreviar a preposição latina «ad», que
significa «para», «em», «a», e que se usava para introduzir os
destinatários das missivas. Condensava-se o «a» e o «d», num único
carácter. É a chamada ligatura. O dicionário brasileiro Aurélio diz que
ligatura é a «reunião, num só tipo, de duas ou mais letras ligadas entre
si, por constituírem encontro frequente numa língua». Nesse mesmo
dicionário da língua portuguesa confirma-se o símbolo @ como abreviatura
de arroba.

O misterioso @ continuou a ser utilizado até ao século XIX,
altura em que aparecia nos documentos comerciais. Em inglês lia-se e
lê-se «at», significando «em» ou «a». Quem percorra as bancas de fruta
ou os mercados de rua norte-americanos vê-o frequentemente. Os
vendedores escreviam e continuam a escrever «@ $2» para significar que
as azeitonas se vendem a dois dólares (cada libra, subentenda-se). Para
eles não se trata de nenhuma moda: sempre viram aquele símbolo como a
contracção das letras de «at».

Na máquina de escrever Underwood de 1885 já aparecia o @, que
sobreviveu nos países anglo-saxónicos durante todo o século XX. O mesmo
não se passou nos outros países. No teclado português HCESAR, por
exemplo, que foi aprovado pelo Decreto-lei 27:868 de 1937, não existe
lugar para o @. Por isso, quando o símbolo reapareceu nos computadores,
ele tinha já um lugar cativo nos teclados norte-americanos, por ser aí
de uso frequente. Nos nosso teclados só foi acrescentado nos anos 80 e
encavalitado noutra tecla: é preciso pressionar simultaneamente
Ctrl+Alt+2 ou AltGr+2 para o fazer aparecer.

Quando o correio electrónico foi inventado, o engenheiro Ray
Tomlinson, o primeiro a enviar uma mensagem entre utilizadores de
computadores diferentes, precisou de encontrar um símbolo que separasse o
nome do utilizador do da máquina em que este tinha a sua caixa de
correio. Não queria utilizar uma letra que pudesse fazer parte de um
nome próprio, pois isso seria muito confuso. Conforme explicou
posteriormente, «hesitei apenas durante uns 30 ou 40 segundos… o sinal
@ fazia todo o sentido». Estava-se em 1971 e esses 30 ou 40 segundos
fizeram história, mas criaram um problema para os países não
anglo-saxónicos. Não foi só nos teclados, foi também na língua.

Em inglês, «charles@aol.us» entende-se como «Charles em aol.us»,
ou seja, o utilizador Charles que tem uma conta no fornecedor AOL,
situado nos Estados Unidos. Mas em português não soa bem ler
«fulano@servidor.pt» dizendo fulano-arroba-servidor.pt. Nem tem muito
sentido. Mas qual será a alternativa? Uma solução seria seguir o inglês e
dizer «at». Outra ainda seria dizer «a-comercial», como nos princípios
do século XX se chamava a esse símbolo no nosso país. Talvez o melhor
fosse utilizar «em». Mas haverá soluções mais imaginativas.Quem quiser
gastar o seu latim pode proclamar «ad», rivalizando em erudição com o
mais sábio dos literatos. Ou surpreender toda a gente, anunciando uma
«amphora» no seu endereço.

(Por Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática.)
Moacir
Japiassu | comentários(1)

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  1. Blogadinha
    20/04/2010 às 15:36

    Já diz a minha avó, que percebe tanto da rede como eu da pesca, que uma arroba são 15Kg e um alqueire 15Lt (por aí)! Quem inventou a primeira, porventura já teria dado conta da segunda destas medidas e daí o mistério que ficou para o mundo informático…http://blogadinhadosvirtuais.blogs.sapo.pt

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