Início > Reflexões > Reflexões Carlos Brickman

Reflexões Carlos Brickman

A demanda pelo erro

Mas, citando o gênio Chico Buarque, deixa a festa acabar, deixa o
barco
correr, deixa o dia raiar. Está cheio de gente na praça que não quer
saber se a
informação é correta: só se interessa em descobrir se pode ser bem
explorada
politicamente. Há coisas notáveis: Dilma Rousseff nos Estados Unidos,
passeando
com Marta Suplicy, indo à entrega de um prêmio a Henrique Meirelles, e
milhares
de e-mails garantindo que ela não pode entrar nos Estados Unidos, por
ter
participado do sequestro do embaixador americano no Brasil e ter sido
condenada.

Dilma deve ter um monte de defeitos, talvez tenha seus esqueletos no
armário,
mas não participou do sequestro do embaixador americano. Não há processo
nenhum
contra ela nos Estados Unidos. E o fato é que ela estava lá, sem que
ninguém a
incomodasse – mas o boato continuou circulando. É como o tal livro
proibido, que
de proibido não tem nada: apenas foi recusado por duas editoras e o
autor
preferiu colocá-lo na internet. É como a análise segundo a qual as
inundações
que houve em São Paulo foram culpa do governo e da prefeitura, mas as do
Rio
tinham a ver apenas com São Pedro e a fatalidade, jamais com a
inoperância das
autoridades locais. É como a demissão de Alexandre Garcia, que continua
na
Globo, que apresenta os jornais mais importantes da rede, mas não faz
mal:
segundo os boatos, foi demitido por causa da censura.

Para que buscar informação correta, se boa parte dos consumidores de
informação está ávida pela notícia falsa, mas que pode render exploração

eleitoral?

O suposto incesto

O cavalheiro é preso em flagrante, mantendo a filha e os filhos que
ela teve
em cárcere privado, sujeitos a maus-tratos. Confessa o crime de incesto e
admite
que é o pai de pelo menos três dos filhos que a moça teve (segundo ela,
os sete
filhos são dele). Preso em flagrante, réu confesso, sem demonstrar
qualquer
arrependimento, admite tranquilamente que começou a manter relações
sexuais
forçadas com a filha quando ela mal completara os 12 anos de idade; e os
meios
de comunicação o tratam como "suspeito".

Tudo bem, ele só será considerado criminoso depois de julgado e
condenado.
Mas os atos que cometeu foram cometidos; a Justiça só dirá se configuram
crime.
Mas ele não é suspeito de incesto, não: ele cometeu o incesto. A filha e
os
filhos que ela teve viviam mal, em cárcere privado – e isso não é
suspeita, é
fato.

É um avanço que os meios de comunicação já não tratem pessoas ainda
não
julgadas como criminosas, ou monstros, ou bruxas (embora, como no caso
da
procuradora acusada de espancar a menina que queria adotar, tenha
abandonado a
contenção – e precisamos admitir que era dificílimo mantê-la naquele
caso). Mas
também não é para fingir que não se sabe se o cavalheiro fez alguma
coisa. Um
exemplo: o jornalista Pimenta Neves matou a namorada a tiros. A Justiça
decide
se cometeu crime ou se houve circunstâncias pelas quais não houve crime.
Mas ele
não é o "suposto" matador. Ele matou e disse que matou.

Um atento leitor desta coluna, Henrique Galinkin, lembra que boa
parte dos
meios de comunicação usa essa terminologia esquisita por medo de
processo. Mas
teme o dia em que o Fluminense ganhe de 6×0 do Flamengo e a imprensa
noticie uma
"suposta goleada".

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=594CIR001

Anúncios
Categorias:Reflexões
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: